Carregando um cadeirante pela escada. Carregar não é acessibilidade.

por | 13 maio, 2019 | Acessibilidade, Turismo Adaptado | 4 Comentários

É claro que nenhuma pessoa gosta de ser carregada, pois isso além de desconfortável e constrangedor, também é um perigo. Além disso, para carregar uma pessoa é necessário técnica e treinamento, afinal somos pessoas e não algo parecido com um saco de batatas.

Eu (Ricardo Shimosakai) já passei por essa situação inúmeras vezes, e em grande parte delas tive que fazer um treinamento relâmpago, pois percebia nas palavras e gestos, que a pessoa não tinha preparo, então isso poderia causar algum acidente.

No vídeo estou em Morro de São Paulo, um distrito da Ilha de Tinharé na Bahia. O local não possui carros, e tem uma geografia com bastantes subidas e descidas, pois é feita de morros, e por isso ganhou esse nome. Alí é o píer, a principal porta de entrada para o destino, aonde chagam a maiorias dos barcos. A grande dificuldade desse tipo de local, é a variação do nível da água, por causa das marés, podem variar alguns metros de altura, dependendo do horário. Por isso o píer deve ser construído acima do máximo alcance da água, no pico da maré cheia.

Mesmo assim, para sair do píer e chegar até a embarcação, há uma grande escadaria, grande mesmo na maré alta. Como não há nenhum recurso tecnológico como plataformas elevatórias, também não existe nenhuma estrutura arquitetônica como rampas, então o único jeito é ser carregado através da escada.

Não é difícil ter ideias para resolver esse tipo de problema, difícil mesmo é fazer com que elas sejam executadas. Percebi a ingenuidade do governo local, que foi me apresentar um forte, que estava sendo restaurado e logo iria ser reaberto ao público. Garantiram que um arquiteto especialista em acessibilidade estava cuidando da reforma. Quando fizemos uma visita ao local, fiquei espantado ao encontrar uma série de falhas na acessibilidade, erros tão básicos que nem um simples estagiário cometeria. Isso confirma mais uma vez o que eu canso de reforçar, que a acessibilidade não é trabalhada com profissionalismo.

Dei várias dicas, para mostrar que tendo um olhar experiente, muita coisa poderia ser ajustada da forma correta. Mas um bom trabalho não é feito com dicas, mas com um bom planejamento. Entrei em contato novamente com os órgãos responsáveis, esperando que pudéssemos fazer um trabalho adequado, mas não me deram atenção. Pelo contrário, até as promessas colocadas no acordo para viabilizar minha visita, não foram cumpridas.

Também já passei por situações parecidas, onde abrem espaço para palestras, com a intenção de mostrar a preocupação pelo tema, e dar a impressão de que estão fazendo algo. Mas isso é meio falso, pois quando se vai para a prática, que é o que mais interessa, muitos desviam e dão desculpas. Uma palestra que não é seguida por ações práticas, é como um sonho, que se acaba quando acordamos. Sonhar é muito bom, mas fazer o sonho acontecer, isso sim é fantástico.

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4 Comentários

  1. Elisangela Lima Vulcani

    Muito boa sua colocação: ” se não realizados, não passam de sonhos”.
    Os responsáveis precisam se conscientizar da importância de planejar qualquer obra colocando a acessibilidade como prioridade! 🙏🏻🙁 bjs Shimosakai

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    • Ricardo Shimosakai

      Percebo que muitos chamam para dar palestras somente para parecer que estão fazendo algo. Pois como disse, fica somente no sonho, e quando proponho uma ação, o sonho acaba.

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  2. Thelma

    Lei da inclusão e acessibilidade é lindo no papel .
    Mas muito difícil encontrar locais adequados e com total acessibilidade .
    Ninguém quer gastar dinheiro , nem poder.publico e nem.o privado.
    Falo isso porque meu filho tem mobilidade reduzida, então sei a dificuldade que é.
    Até na escola , ele não tem acesso à lanchonete , não tem acesso ao restaurante e nem à sala de Desenho Geométrico – Tudo porque , para acessar esses locais , só por escada. .. Sim , escadas !!!!
    Já fui conversar com a escola , eles te recebem e escutam mas não são a resposta que eu gostaria de escutar : que fariam uma rampa adequada ou que o elevador também atendesse esses locais.

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    • Ricardo Shimosakai

      Tem razão, na prática a história é outra. Quando os locais são do governo ou prefeitura, a coisa é ainda mais complicada. Por isso eu prefiro trabalhar com locais particulares. Se seu filho estuda em uma escola particular, vá mais além, não fique somente nas palavras. Mande uma denúncia para a prefeitura e mostre para eles, e fale que sua luta só acaba quando as coisas que seu filho tem direito forem fornecidas. Assim eles verão que não são somente palavras, e devem procurar tomar uma atitude. E não aceite promessas a longo prazo, uma vez que isso já deveria ter sido feito.

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