De mochila nas costas – Viajar pela Europa com independência só depende de você

por | 22 out, 2010 | Turismo Adaptado | 10 Comentários

*Este texto foi escrito para a seção Turismo da Revista Sentidos. São Paulo, Editora Escala, ano 8, n.51, p.58-62, março de 2009. Você também pode ver a segunda parte desta viagem na matéria escrita na edição n.52 da revista ou acessando o limk a seguir O charme de Paris e a tradição de Londres acessíveis para pessoas com deficiência

Existem diversos tipos de turistas, mas de maneira rústica, podemos separá-los em dois grupos. O primeiro engloba os que querem conforto, comodidade, tudo ao alcance. Sentam em frente a um agente de viagens e querem o pacote pronto. Já outros sentem prazer na aventura. Por a mochila nas costas, e conseqüentemente buscar uma intimidade maior com o destino escolhido. Pertenço ao segundo grupo e para realizar o grande sonho de conhecer a Europa, busquei ser fiel aos meus princípios. Sou paraplégico, mas não pense que a cadeira de rodas foi um impeditivo. Posso adiantar que curti todos os momentos, que ficarão para sempre gravados em minha memória. E convenhamos. Uma viagem independente, além de reduzir os custos, ensina muito. Organizá-la traz diversas possibilidades e situações, e junto disso um amadurecimento muito grande. Ou seja, é importante não confundir independência com falta de planejamento, muito pelo contrário. E planejar foi o que fiz ao decidir visitar Lisboa, em Portugal e Madri e Barcelona, na Espanha.

A porta de entrada para o continente são os aeroportos, e os da União Européia têm serviços especializados de atendimento a pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Em Portugal esse serviço chama-se “My Way”, e na Espanha “Sin Barreras”. Após desembarcar no aeroporto, vá a um posto de informações turísticas e pegue mapas e folhetos. Eles trazem tudo o que está acontecendo na cidade, e são mais atualizados do que os tradicionais guias. Nas principais estações de trem, também são fáceis de encontrar. Aproveite para perguntar como chegar ao seu local de hospedagem, escolhido com antecedência para sua segurança, caso necessite de um dormitório adaptado. Alguns aeroportos possuem transporte de ligação com o centro da cidade, como o Aerobus de Lisboa, mas se você estiver com uma mala grande e pesada, às vezes vale a pena pegar um táxi.

Os albergues, o meio de hospedagem que escolhi, contam com quartos e banheiros comunitários, o que facilita muito a comunicação entre as pessoas, além de serem baratos e local preferido de mochileiros. Geralmente é freqüentado por gente de espírito jovem, alegres, de diversos locais do mundo, que querem conversar e trocar informações. Uma grande oportunidade não só para se divertir, mas para adquirir conhecimento, exercitar uma língua estrangeira, conhecer os costumes de outros países, pois geralmente eles se assemelham a uma Torre de Babel.

Uma das vantagens de se viajar para Portugal e Espanha, é que você não irá encontrar grandes dificuldades em se comunicar. Algumas diferenças no idioma deixam a viagem até mais divertida como, por exemplo, café-da-manhã que em Portugal é chamado de “pequeno-almoço”.

Já estabelecido, é bom fazer um passeio de reconhecimento. Vá prestando atenção nas ruas e vias de grande circulação, assim como os meios de transporte que passam por ali. Procure verificar como ir até o centro, pois esse é um ponto que a maioria das pessoas conhece. Anote essas informações, pois como provavelmente estará maravilhado com as atrações que irá encontrar, não deverá se lembrar disso depois.

E elas não são poucas em Lisboa, onde passei a maior parte do tempo enquanto estive em Portugal. O gigantesco Parque das Nações foi construído dentro de padrões de acessibilidade para sediar o evento internacional da EXPO’98. Agora é um enorme celeiro de cultura com diversões que podem consumir um dia inteiro. Lá visite o Oceanário, um museu de biologia marinha que lembra um porta-aviões. É o segundo maior do mundo com mais de 16.000 animais e plantas de mais de 450 espécies. Próximo, existe a Torre Vasco da Gama, que fica numa das extremidades do teleférico, de onde se pode ter uma ampla visão de todo o parque. No verão, até as 21h ainda há um resto do sol. Então a melhor coisa a fazer é jantar num dos restaurantes da orla, alguns flutuantes e todos acessíveis, e depois se divertir no Casino Lisboa.

Atrativos também são o que não faltam na região de Belém, talvez a mais conhecida em termos turísticos na capital portuguesa. Não deixe de visitar o Mosteiro dos Jerônimos, ao lado do Museu de Marinha. Bem próximo, na direção do rio Tejo, se encontra o Monumento aos Descobrimentos e um pouco mais a frente a Torre de Belém. Todos eles, verdadeiras aulas de história de nossos descobridores. Tanto o Mosteiro como a Torre fazem parte da lista das 7 Maravilhas de Portugal e são considerados patrimônios mundiais pela UNESCO. Com essas características, dizer que esses locais são imperdíveis parece até uma redundância.

A Praça do Comércio, no bairro Chiado, é imponente e enorme como um campo de futebol. Uma delícia passear por lá. E o elevador de Santa Justa, próximo da praça e que liga a parte Baixa da capital portuguesa ao Bairro Alto tem um estilo antigo, marcante. Iluminado à noite parece uma obra de arte futurista. Próximo à Fábrica dos Pastéis de Belém, tradicional lugar para saborear os deliciosos doces portugueses, encontrei um estacionamento com vagas reservadas para a pessoa com deficiência, e uma placa informando que se fosse desrespeitada, haveria uma multa aplicável de 60 a 300 Euros. Complementei meu giro por Portugal visitando a cidade de Lousã, à convite da Provedoria Municipal das Pessoas com Incapacidade, onde me foi apresentada a cidade e o projeto “Lousã: destino de turismo acessível”.

O trem é um meio de transporte comum nesses países. Existem diversas classes e estilos, e com isso a questão da acessibilidade também é variada. Os mais luxuosos, que partem de grandes estações, estão mais bem preparados. Como não conhecia o trem que iria embarcar, sempre me dirigia antes até um posto de assistência da estação, e descrevia brevemente minhas dificuldades, pois as administradoras ferroviárias Renfe e Adif possuem um serviço de assistência. A Estação do Oriente em Lisboa possui uma magnífica cobertura de ferro e vidro, recebeu um importante prêmio de arquitetura devido à sua beleza, e foi de onde embarquei num trem noturno para Madri a bordo de um vagão dormitório. Cheguei lá na manhã do dia seguinte, já descansado.

Os metrôs europeus são parcialmente acessíveis e tarifados. Portanto, andar de ônibus pode ser melhor em alguns aspectos, pois pessoas com deficiência não pagam, e é possível admirar as belezas da cidade e reconhecer alguns de seus costumes locais pela janela.

Na capital espanhola existe um serviço turístico gratuito chamado “My Madrid Free Tour”, um tour a pé de 3 horas, onde guias contam histórias de pontos turísticos recheadas de bom-humor, como da imensa Plaza Mayor, e o majestoso Palácio Real. Diariamente animadores organizavam saídas para curtir a noite em Madri. Em uma das vezes fomos a uma taberna comer “tapas”, que é uma espécie de rodízio de petiscos da cozinha espanhola, uma tradição criada com o objetivo de reunir as pessoas para um delicioso bate-papo. Outro bom lugar para comer é o Pollo Campero, uma grande rede de fast-food, que serve principalmente pratos de frango preparados de variadas formas, por um preço em conta.

O Parque Del Retiro é considerado o pulmão verde da cidade, com lindos jardins e repleto de esculturas e monumentos, e possui um lago onde se pode passear de bote. Outras atrações imperdíveis ficam a poucos metros dali, como o Museo Del Prado que possui uma das melhores coleções mundiais de arte européia, com mais de 11 mil peças. O Museo Thyssen-Bornemisza cujas obras remetem a 18.000 a.C, e o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, um grande centro cultural onde está exposto Guernica de Pablo Picasso, além de outras obras de pintores famosos como Joan Miró e Salvador Dalí. Diversos museus possuem áudioguias com explicações em vários idiomas, audiodescrição para cegos, ou ainda manuais descritivos em braile.

Madri possuí calçadas excelentes para circulação, feitas como um material semelhante a blocos de mármore, bem nivelados e com rebaixamento de guias em todas as esquinas. E quando parti da capital espanhola rumo a Barcelona, encontrei o mesmo. A cidade catalã é de um charme único, e considerada uma das referências mundiais em acessibilidade. Para sediar as Paraolimpíadas de 1992, passou por uma grande re-estruturação na cidade. La Rambla é um agitadíssimo calçadão onde fervilha cultura, com diversas barracas e artistas de vários gêneros, por quase 24 horas. Ali também fica o Mercat Sant Josep, chamado de La Boqueria, onde você pode comer os mais diversos tipos de comidas fazendo degustação nos inúmeros boxes, ou então saciando sua fome em mini restaurantes, uma característica de lá.

A cidade é servida pelo Barcelona Bus Turístic, um ônibus turístico de dois andares com a parte superior aberta, e que possui rotas especiais pelos mais interessantes pontos turísticos, por um custo baixo e sem limites de embarque para o dia que foi comprado o bilhete. Com esse serviço fica bem mais fácil chegar a lugares como o Barcelona Futebol Clube, e seu magnífico estádio Nou Camp, pois todos os ônibus são adaptados com rampas automáticas e deixam você praticamente na porta das atrações. A cidade é muito bem sinalizada. Postes com placas de orientação são encontrados por todos os lados, indicando a direção dos atrativos mais próximos, além de contar com mapas e a informação dos tipos de transportes que servem aquela região.

Antoni Gaudí é um artista com muita presença em Barcelona, com obras grandiosas consideradas patrimônios mundiais pela UNESCO, e que são encantadoras por suas formas excêntricas. Entre elas a Casa Milà, ou mais conhecida como La Pedrera, Parc e Palácio Guell, e a Sagrada Família, monumental obra inacabada do artista. No Caixa Fórum Barcelona, um centro cultural mantido pela Fundación La Caixa, acontecia o congresso “Discapacitat i Família”, discutindo a pessoa com deficiência no seu ambiente familiar e o cotidiano, mostrando a constante preocupação européia pelo tema.

O Palau Nacional sedia o Museu Nacional d’Art de Catalunya, e fica localizado em Montjuic, onde se tem uma vista sensacional de Miramar. E tem mais. A Barceloneta é um antigo bairro de pescadores junto a orla, e possui um extenso e largo calçadão muito gostoso para passear e relaxar. A praia possui passarelas de madeira, que chegam quase até onde o mar quebra, e possuem ainda chuveiros e banheiros adaptados em forma de cabine. Na mesma região, você encontra o Museu d’Historia de Catalunya e de quebra pode assistir a um maravilhoso pôr do sol na Rambla Del Mar em Port Vell,

De tudo que aconteceu desde o planejamento desta viagem, ficaram diversas experiências maravilhosas e marcantes que me fizeram crescer muito, em todos os sentidos. Foram dias de atividades intensas, tanto que foi muito difícil expressá-las em apenas algumas páginas. Também intensa é a felicidade que ficará por toda minha vida. Pensa que acabou?

Dica de viagem

Mesmo em uma viagem independente, é sempre bom entrar em contato com associações ou empresas, ligadas à pessoa com deficiência. Caso precise repor sondas uretrais ou consertar sua cadeira de rodas, saberão lhe indicar o local certo onde procurar. A Turismo Adaptado é uma das únicas agências qualificadas para enviar turistas brasileiros com deficiência para o exterior. Para fazer o planejamento de sua viagem entre em contato. Turismo Adaptado – 55(11) 9854-1478 / 3846-6333 – ricardo@ricardoshimosakai.com.br

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10 Comentários

  1. diana

    Ao ler a notícia até fiquei convencida que Lisboa é uma cidade acessível. A ilusão durou apenas até que tentei apanhar um autocarro (ónibus) e não era acessível. Depois como forma alternativa, quis apanhar o metro mas os ascensores estavam avariados e, para completar, pude recordar que a maioria dos passeios não são rebaixados. Não sei por onde andou, mas pela sua descrição, Lisboa não foi. Lisboa é de facto muito bonita, mas não é de todo acessível!

    • Ricardo Shimosakai

      Olá Diana, um dos lugares que visitei em Portugal foi Lisboa, e o modo como cada um avalia a cidade pode ser diferente. Realmente acho Lisboa uma cidade difícil para a maioria das pessoas com deficiência, por isso recomendo visitar através de uma agência de viagens de qualidade, como a Turismo Adaptado que está preparada para atender esse segmento de público. Pelo visto você foi por conta própria, se tivesse ido através de nós, com certeza sua experiência teria sido muito melhor

  2. Blog da Audiodescrição

    Olá Ricardo,

    Gostei muito do seu artigo. Com certeza vai ajudar outras pessoas que queiram ou precisem viajar pelos lugares onde você esteve.

    Também achei muito legal sua informação sobre os lugares turísticos que possuem audioguias e audiodescrição. Bacana que começamos a ter isso por aqui também, né!

    Vou publicar uma chamada para seu artigo no meu blog, ok!

    • Ricardo Shimosakai

      Olá,
      Estou atento também à questão das pessoas com deficiência visual e também para a audiodescrição no lazer e turismo. Devo criar pacotes turísticos acessíveis à pessoas com deficiência visual para destinos brasileiros onde a audiodescrição estará incluida, e temos os parceiros que já fazem isso no exterior. Obrigado por nos apoiar!

  3. Aparecida Moyanishi

    Gostei das suas dicas de viagem.

    Meu marido tem dificuldade para caminhar devido ao problema de ataxia do cerebelo, que compromete a coordenação motora e pretendemos em abril ir até Lisboa e Madri e gostei das suas dicas.

    Obrigada!

    • Ricardo Shimosakai

      Olá Aparecida,
      Aconselho a ir através de uma agência preparada para receber pessoas com deficiência, pois somente assim estarão livres dos problemas de acessibilidade. A gente perde muito tempo vendo o melhor acesso, enquanto uma agência especializada já sabe os melhores caminhos e procedimentos. A Turismo Adaptado é uma agência de viagens e está pronta para atender você, fiquem a vontade para entrar em contato através do email ricardo@ricardoshimosakai.com.br
      beijos

  4. luiz fernando barbosa borges

    Olá Ricardo, acompanho sua dicas que são muito boas, porém peço sua ajuda, sou cadeirante, fui baleado na estrada, região de campinas, moro em Franca/sp. Gosto muito de viajar e viajo de carro por ser mais fácil, para o exterior, isto é quase impossível, exceto os nossos vizinhos, o que já fiz e faço.
    Peço sua ajuda de como se virar em hotéis com acompanhantes locais pois é muito dispendioso e difícil levar um acompanhante para o exterior.
    PS, quando você mostra equipamentos modernos e importados seria possível colocar o contato para eventual aquisição. Uso muitos recursos para minha independência, tais como Chair topper, Kit livre, cadeiras dobrável em X e L.

    • Ricardo Shimosakai

      Olá, se precisa de ajuda, então viaje através de nossa agência. Faça seu pedido através do email viagens@ricardoshimosakai.com.br. Coloco diversas idéias de produtos, mas só coloco detalhes para as empresas que pagam pela publicidade.

  5. luiz fernando barbosa borges

    Boa Tarde, Não sou empresa, estou procurando uma agência que me dê suporte, viagens@ricardoshimosakai.com.br é possível fazer um roteiro e contratar os hotéis e guias necessários ?. Minha Primeira pretensão é o Equador. Se for possível comece por informar a melhor data, período de 10 a 12 dias. grato

    • Ricardo Shimosakai

      Olá, faça a solicitação através do email viagens@ricardoshimosakai.com.br. Informe suas intenções de viagem com detalhes, e também suas necessidades. Somente assim é possível te passar uma proposta.

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